O que estamos vendo acontecer com a Venezuela, onde a oposição vence e o governo não entrega o poder; na Nicarágua, a mesma coisa, com o que Daniel Ortega e seu regime têm feito ao povo, é indescritível. E Cuba, então… um regime socialista onde não existem eleições (porque só assim funciona) – o mesmo ocorre na Coreia do Norte. Mas agora estamos tendo a oportunidade de ver que socialismo, onde o governo é dono de tudo, só permitindo concessões e não a propriedade privada, não funciona junto com democracia.

São Paulo, 08 de novembro de 2024.

Moçambique vive uma profunda crise política e institucional. As recentes eleições trouxeram à tona um cenário que, para muitos, já era previsível: a oposição venceu de forma significativa em quase todas as províncias, mas o partido no poder, a FRELIMO, resiste em aceitar o resultado. Esse embate revela não apenas uma disputa de poder, mas o choque entre um sistema de controle estatal, apoiado por concessões econômicas, e o desejo de mudança expresso nas urnas.

Desde a independência em 1975, a FRELIMO governa Moçambique com uma estrutura inspirada no socialismo, onde a terra e muitos recursos naturais pertencem ao Estado. Esse modelo permitiu que o governo concedesse direitos de exploração a aliados políticos e a grandes corporações internacionais. Com as terras nacionalizadas, empresas e políticos têm acesso a concessões lucrativas, criando uma teia de interesses que a FRELIMO agora luta para preservar.

A vitória da oposição não representa apenas uma derrota política para a FRELIMO, mas uma ameaça ao modelo de concessões e acordos econômicos estabelecidos ao longo de décadas. Muitas dessas concessões são o alicerce de interesses econômicos que financiam o sistema atual, gerando grande resistência em relação a qualquer mudança de governo. Dessa forma, a oposição se encontra diante de um impasse: mesmo vitoriosa nas urnas, a transição de poder esbarra na resistência da estrutura de controle estatal.


Esse cenário faz parte de uma tendência observada em vários regimes com características socialistas, como Venezuela e Nicarágua, onde a oposição enfrenta enormes desafios para assumir o poder, mesmo após vencer eleições. Em Moçambique, a situação traz à tona um dilema comum em sistemas onde o governo controla as terras e os recursos: como permitir a alternância de poder sem desmantelar a estrutura econômica que sustenta o regime?

A crise moçambicana é um alerta para as democracias ao redor do mundo. Em países onde o controle estatal domina, a alternância de poder e o respeito à vontade popular tornam-se mais difíceis de serem implementados, levando a um ciclo de crises e instabilidade. Moçambique vive agora o desafio de equilibrar democracia e controle estatal, uma situação que influencia não só o continente africano, mas serve como exemplo para o mundo todo.